quinta-feira, 23 de abril de 2009

Esmola

Terça foi feriado aqui. Não sei bem de quê. Eu e a Bárbara fomos à praia de manhã. Estava cheia de gente! Mas como era feriado parece que toda a gente tirou o dia para pedir… Não sei como hei-de reagir a isso. Sete pessoas pediram-me esmola nesse dia! Na praia um homem de muletas sem uma perna pediu. Não demos. Ao almoço na feirinha (várias esplanadas com grande diversidade de lojas e comida) vimos um miúdo descalço a quem a empregada ofereceu um açaí.

Pouco depois uma mulher de 60/70anos pediu-nos esmola. Perguntei se tinha fome. Pagámos-lhe uma tapioca de queijo e banana que ela gostou muito. Mal saímos da esplanada duas outras mulheres da mesma idade pediram dinheiro pra comer, cheias de moral. “Temos diabetes não podemos ficar mt tempo sem comer, só queremos uma tapioca e tal” “Mas, têm diabetes e vão comer uma tapioca??” Enfim, não custa nada, demos-lhes 2 reais cada uma e vimos que foram mesmo comer, mais tarde quando nos viram na rua agradeceram muito.

À noite ao jantar passou outro puto a pedir. Mesma lengalenga “Se tiveres fome podemos pagar-te algo para comeres…” Pegou na sanduíche todo contente e levou para as irmãs mais velhas que estavam à espera mais à frente. Normalmente são os mais novos que recebem melhor, os irmãos ficam à espera.

Antes de acabarmos a refeição veio um senhor, já conhecido dos meus colegas de casa, pedir dinheiro para o ônibus, é jardineiro e vem todos os dias para o centro procurar trabalho quando não encontra pede dinheiro para conseguir voltar a casa.

Como devem imaginar isto custa muito. Principalmente porque não sei se o que faço está certo. Na minha primeira semana um menino veio-me pedir um pouco da comida que tinha no prato e eu dei-lhe um não horrível. Nem sequer comi tudo no fim… Senti-me culpada durante uma semana. Dinheiro não dou, mas comida? …Ninguém devia ter falta de comida e é tão barato pra mim! Não sei, não quero alimentar isto. O que vale é que esta cidade não é muito turística, por isso não é à custa da esmola dos turistas que eles sobrevivem. Isto angustia-me um bocado.

Viagem a Pipa

Sexta a Ellie deu um churrasco em casa dela. Era uma da manhã e fomos dar um mergulho na piscina dela! Foi engraçada a festa mas deitei-me cedo e fui atacadíssima pelas melgas (murissocas como lhes chamam aqui).
Lá na festa conhecemos a Andrea. “Bora a Pipa? Bora, vamos no meu carro!”. No domingo eu, a Bárbara, o Pedro e a Andrea fomos a Pipa. Ela ia ficar em casa dum amigo e não sabia se dava pra ficarmos lá, entretanto nós mandámos uma mensagem pelo couchsurfing a uma bacana que vivia com um Gustavo. Coincidência? Esse Gustavo era o tal amigo da Andrea!


Pipa é um ponto internacional de turismo, tem os melhores hotéis do Brasil, praias óptimas, etc. Mas…é só uma rua! É só uma longa rua empedrada e algumas ruas de terra que a cruzam.
Foi pena o tempo. Fomos à praia mas não parou a chuva miudinha. Mas valeu o samba à noite, à chuva, descalças e o tempo divertido com eles. E aquele hambúrguer de queijo e ovo à noite! Na segunda vimos que tinham roubado a matrícula do carro da Andrea, ridículo. Por isso voltámos nesse dia.




Caminho para a praia do Madeiro :)







As ruas de Pipa nesta época de chuva! Tudo alagado.









Incluindo o interior da boate! O Pedro disse que estava a sair água inclusivé do banheiro. Não sei se estava a gozar, mas também não quero saber! :x








Pessoal a dormir na praia!







Noite de Samba! :D

Rute (couchsurfer em casa do Gustavo), Pedro, Bárbara, Gustavo, Andrea e eu :)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Novas

O Ricardo, o Pedro e a Sofia foram com as famílias para Pipa e Porto Galinhas de quinta a domingo. Ora, não ia passar a Páscoa sozinha. :)
O Stanley convidou-me para ir a um festival em Gravatá (perto de Recife no estado abaixo), com uns amigos dele. Lembrei-me de convidar a Ellie (inglesa que conheci lá na universidade) e ainda bem porque me diverti imenso com ela!

Fomos as duas no carro do Stanley e foram mais cinco amigos dele. Dormimos numa pousada perto do festival. Só havia dois quartos, mas eles deixaram as meninas ficar no quarto d casal.


(Os rapazes muito determinados a jogar dominó!)

Muita chuva, imenso calor, muita confusão e forró por todo o lado.
O pessoal foi muito simpático e acolhedor. Mas é impressionante como merecem toda a fama de engatatões que conhecemos dos brasileiros.
Ouvi Natiruts, com a Ellie, debaixo de uma chuva imensa, super contente. As outras bandas não eram tão giras e estou absolutamente farta de forró! Por duas vezes acordei com Forró muito alto a tocar numas colunas em cima dum carro (coisa estranahmente comum aqui).

Eu e a Ellie.

No domingo chegou o Pedro Cardoso e a Bárbara. É bom ter cá alguém mais conhecido e recém-chegado.
Ontem comecei as aulas. É muito mais exigente do que eu pensava. Tenho quase um teste por mês de cada disciplina, um relatorio, uma saída de campo... Vai ser a sério!
Escolhi disciplinas de Biologia para ver se faço a ponte com o que quero seguir no futuro.
É engraçado como o conhecimento é formatado de modo tão diferente de acordo com as diferentes ciências. Estou habituada e apaixonada por Psicologia. Cada coisa que se aprende é testado em nós mesmos. Tudo o que estudo é comprovado em mim, porque estou a estudar o modo como a minha própria mente funciona. Pelo contrário nas ciências "exactas" há uma concentração no exterior de nós, é tudo muito mais concreto e óbvio.
Só pra dar um exemplo, na aula de zoologia o professor fala de concentração na matéria e de valores morais bem definidos, enquanto que a professora de psicanálise convida as pessoas a dizer à turma, ou a anotar num papel à parte, todos os pensamentos que surgirem na mente durante a aula. Porque pode ser interessante compreender o porquê desse pensamento nesse momento, ou só para libertar a mente e aumentar a concentração na aula.
Vai ser um grande exercício mental ter estas duas vertentes. Uma exigente a nível da concentração, da direcção para algo específico exterior a mim, que é bem definido, matemático, material... outra de auto-compreensão.
É como colocar-me em frente a um espelho e ver os meus olhos lá espelhados e olhar um espelho e concentrar-me nos olhos que estão a ver.
Ainda me custa muito estar longe... mas espero que vá melhorar.
*

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Estou a começar a gostar de estar aqui... :)


(vista da minha sala)

domingo, 5 de abril de 2009

Monólogo

Sabem aquela miúda bem chata?
A Margarida? A que se está sempre a queixar, não diz nada de novo... até é irritante! Ela anda sempre ora triste e nostálgica, ora aborrecida com a vida.
Eish..! Tou farta dessa gaja.
Estou desejosa que a outra chegue. A Margarida bem-disposta, desafiadora e divertida. Já tenho saudades dela, e não a vejo há bue.
Espero que volte depressa...

(No coments please.)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Nova casa

Hoje saí de casa da Vera e do Paulo.

Gostei muito deles, preocuparam-se imenso comigo (embora a Vera seja meia distraída). Perguntaram quem eram estes portugueses com quem vim viver. A Vera até ficou triste por eu ir embora.
Mas já era tempo. Tempo para poder sair à noite e não ter que voltar de taxi sozinha, para me dar mais com pessoal da minha idade e para sair de casa dos "pais" outra vez!

Vou ficar na nova casa até dia 25 deste mês (porque o apartamento já ta pago). Aqui há dois quartos e um mais pequeno onde estou agora, mas este não tem cama, estou num colchão de ar. Por mais 30 euros por mês vamos para o centro, para uma casa bem melhor e maior...embora não esteja virada para o mar! (Que pena.)
Estou com o Pedro, a namorada Sofia e o Ricardo. Estou a gostar muito deles. Além de que falam à norte e a Sofia diz "bamos zembora"!



Esta é a vista do meu quarto, estamos a uma rua da praia (embora não seja a melhor).





E esta é a tarântula que vi na universidade no outro dia, se alguém tiver curiosidade :P


P.S. Está um CALOR INSUPORTÁVEL!

;)

segunda-feira, 30 de março de 2009

Dia chato

Levantei-me algumas vezes da cama durante a noite. Com melgas, calor, ou só porque não conseguia dormir.

Eram 9 horas quando vim ter a casa dos portugueses (na mesma rua mas perto da praia) para irmos à universidade. Fui lá tentar fazer a minha carteira de estudante mas afinal só a partir de dia 3. Por sorte encontrei o coordenador dos Assuntos Internacionais que me disse que eu podia ir a um sítio no centro e fazer lá já hoje. (A carta de estudante é importante pa universidade e dá descontos óptimos nos ônibus e noutras coisas.)

Depois do almoço fui tentar aceder à net ainda na UFPB, mas não havia energia...nem ventoinhas funcionavam.

Fui à assessoria de assuntos internacionais mas era a hora de almoço e ninguém lá estava.

Decidi que tinha de voltar a casa (15min d onibus + 20 a pé) para ir ver o endereço do sítio onde se faz a carta d estudante e o passe.

Não estava ninguém em casa. Gritei à vizinha "Ana!...Minino!" e aparece o Fabricio (de uns 8 anos) a correr descalço pelo entulho.
- "Oi, Sê tem chave pra mim, tem?"
- "Tem" - e entrega-ma por entre as grades do portaozinho.

De novo cá fora vim apanhar o onibus para o centro.

Estava fechado. Vi lá um contacto e liguei.
"Preciso de fazer uma carta de estudante."
"É, mas não vai dar, não. Estou no banco e está muita fila..Só amanhã."
...No papel à porta de onde tirei o número dizia que estava aberto das 8h às 13h e das 14h às 16h30. Eram 15h.

Depois de gastar todo o dinheiro do telemovel com a senhora, voltei para o meu bairro - Manaíra.
Vim-me queixar aos portugueses, telefonei pra casa e disse que ia jantar com eles fora, porque às 20h íamos ver um apartamento lá perto.

Perto das 20h telefonamos à senhora do aluguer e afinal não havia apartamento pra ninguém.
Vamos amanhã ver outros dois. (Queremos um apartamento com três quartos (pra mim, pro ricardo e outro pró pedro e a sofia) aqui nestes bairros.)

Depois do jantar fui apanhar um táxi para ridicularmente subir a rua (15min a pé!), porque há noite não passo naquela zona sozinha. A rua é só de casas pequenas, tem pouca luz à noite e o movimento que há é do bairro: míudos de bicicleta, pessoal sem t-shirt nas esplanadas e a conversar no mini-mercado.
Pela segunda vez um taxista ficou surpreendido por me ouvir dizer que é no fundo da rua (onde começa a favela). Antes de sair do táxi, pedi para ele não ir embora antes de eu entrar, por favor.

Não tinha uma chave comigo porque tinha deixado na vizinha antes de sair. Agora eram nove da noite, a vizinha ja tava a dormir e a luz de casa estava acesa. Toquei à campainha e nada. A poucos metros estavam três homens e uma criança. Estavam encostados no muro da última casa antes da favela. Um deles sem t-shirt e não me admira que estivessem descalços.

O taxista feito cobarde deixou-me ali sozinha.

Odiei-o.

Toquei imensas vezes, gritei à porta e à vizinha. Tentei telefonar mas tinha gasto todo o dinheiro com a mulher da carta de estudante.
Decidi que não ia ficar à espera de ser assaltada e dei meia volta. Ainda por cima, soube hoje mesmo que há um mês houve tiros e mortes na favela.
Depois de ter pago 5 reais para subir a rua voltei a descê-la, agora sozinha e a pé.
Felizmente na rua ainda havia umas pessoas a apanhar ar, numas cadeiras..na rua a conversar...
Andei o mais depressa, descontraidamente e segura de mim que pude.

Estou em casa dos portugueses aqui no outro extramo da rua. Vou dormir cá. Telefonei mais tarde à Vera e ela tinha ido só em meia hora a casa de não sei quem e tinha-se esquecido de mim.

Ela não tem culpa. Eu é que estou na casa deles e tenho que seguir os seus horários.
Mas estou desejosa de ter a minha chave e uma casa bem longe daqui. Longe da rua que todos me comentam ser perigosa.