É urgente aceitar a morte.
Passando rapidamente pelo primeiro impacto desta frase, salto o afastamento que ela me cria para conseguir olhá-la de outra forma.
É urgente aceitar a morte, mas não porque faça sentido, porque não faz.
Não queremos, nem agora nem nunca, morrer. Nunca lhe vou conceder consentimento.
Não é isso.
É urgente aceitar a morte porque ela existe.
E mais do que existir em mim, existe nos que amo. É-me urgente aceitar que ela existe em quem eu amo.
A razão para esta urgência é simples. Tenho que aceitar a morte para aceitar a própria vida.
Se não aceitar a morte de quem ainda vive, estarei a limitar o amor que lhe posso dar por estar constantemente envolta em preocupação com o futuro.
Se a ignorar, quando aquele que amo morre, vai-me ser impossível aceitar a vida que ele teve.
Ele viveu. Nada pode tirar isso.
Ela vive. Nada pode tirar isso. Pode terminar a vida, mas não pode apagá-la. Terminar implica que há algo, e é algo espectacular que nunca será apagado.
Venha a morte, mas ela que saiba que não vai apagar vida alguma.