A brisa, outrora refrescante, abraça-me num arrepio cada vez que passa. Mas ali me fico. O que vejo não pode ser abandonado. Nada faço. A minha reacção é pura quietude e olhar penetrante. Tão perplexa estou que nem me lembro de ficar assustada ou receosa pelo meu próprio corpo, que quebra o movimento cíclico de corpos e carros que atravessam a estrada. No exterior da carrinha podem ler-se frases cativantes, logótipos de marcas familiares. Mas o interior…
Ninguém espreita, ninguém sente necessidade disso. Homens entram e saem da carrinha carregados. Vestidos com batas brancas de acordo com a sua profissão. Tão funcional e normal como as outras. Na minha quietude atónica deixo correr o pensamento sinistro de que as batas são uma protecção da roupa contra o sangue que pode sujar a roupa. “Mas sim, porque o facto de se ficar sujo sobrepõe-se ao facto de a sujidade ser sangue.” – penso na hipocrisia.
Não fico mais ali. Saio de repente do turbilhão de emoções que há tanto espera para se mostrar em indignação e calo-o uma vez mais. Esta não é a minha luta. Não assim. Viro costas às carnes penduradas e caminho para onde me esforço a recordar que ia.
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sábado, 4 de fevereiro de 2012
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2 comentários:
:)*
Está mesmo, mesmo bom, Margarida! E o livro?
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